O Leiteiro e os Dias de Saudade- Sérgio da Silva Almeida- Crônica

Uma página no Facebook lançou uma provocação cheia de afeto e memórias: “Me conte algo de que você sente saudade na sua cidade”.
Ao ler os comentários, fiz uma verdadeira viagem no tempo, como quem folheia um álbum de lembranças.
Teve quem recordou as matinês de domingo no cinema. Eu mesmo lembrei que o primeiro filme que vi no Cine Astral, em Cachoeira do Sul, foi O Campeão, em 1979 — chorei feito criança naquela cena final, uma das mais tristes da história do cinema.
Outros falaram de bares tradicionais que já não existem e até da rotina da cidade: “As ruas ficavam cheias de bicicletas no fim da tarde, quando o pessoal saía do trabalho”.
Uma internauta narrou com emoção as viagens de trem a Porto Alegre ao lado da mãe, passando pelo túnel; outro evocou as quermesses da igreja, com as apostas divertidas nos porquinhos-da-índia. Dessa eu também me lembro, bah! Ganhei muito garrafão de vinho barato apostando neles.
Entre tantas lembranças, uma figura simples se destacou: o leiteiro que deixava o leite fresquinho, em garrafas de vidro, na porta das casas — símbolo silencioso de um tempo mais sereno, humano e próximo.
O leiteiro de antigamente era quase folclórico. Com sua carroça puxada a cavalo — depois bicicleta ou caminhãozinho — passava cedo, quando a cidade ainda despertava.
Enchia as vasilhas deixadas na porta, anotava na caderneta ou recebia na hora, sempre na base da confiança.
Mais do que um vendedor, era quase da família: sabia os nomes das crianças, os gostos de cada freguês e ainda proseava um pouco antes de seguir adiante. Representava a simplicidade de uma época em que a palavra valia tanto quanto um contrato.
Hoje, sua lembrança ainda desperta carinho e nostalgia — memória de um tempo em que a vida corria mais devagar, a confiança era moeda forte e o leite chegava à mesa com o gosto puro do campo.





