Quando a memória se perde, o amor permanece- Sérgio da Silva Almeida

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Quando a memória se perde, o amor permanece

A demência, silenciosa e implacável, altera os papéis da vida.

O pai e a mãe, que um dia guiaram, protegeram e ensinaram, passam a depender do cuidado dos filhos. É como se o tempo invertesse sua lógica: aqueles que antes conduziam, agora precisam ser conduzidos; quem um dia deu a mão, agora precisa recebê-la.

Um amigo me contou que seu pai, já com mais de oitenta anos, perguntou se ele tinha filhos. Quando respondeu que sim, o pai quis saber se conhecia os netos. Ele confirmou — e seu coração doeu, pois os netos já têm mais de vinte anos.

Histórias como essa se repetem em milhares de lares brasileiros, mostrando que a demência não atinge apenas a memória, mas também o cotidiano e os sentimentos da família. Conforme relatório do Ministério da Saúde em parceria com a Unifesp, aproximadamente 8,5% da população brasileira com 60 anos ou mais convive com algum tipo de demência, o que equivale a cerca de 2,71 milhões de pessoas.

Ver um pai ou uma mãe mudar da noite para o dia é uma experiência que mistura dor e aprendizado. A cada dia, pequenos detalhes desaparecem: o nome do filho, lembranças de infância, momentos compartilhados. Para o filho, é como se estivesse conhecendo novamente quem sempre o conheceu tão bem.

Mesmo quando a memória falha, o vínculo permanece. Gestos, olhares e carinho continuam presentes, muitas vezes mais fortes do que palavras. A paciência torna-se a principal ferramenta, e a compreensão, a maior aliada. Cada momento de reconhecimento — um sorriso, um abraço espontâneo — transforma-se em um tesouro precioso.

A demência pode apagar lembranças, mas não a essência do amor entre pais e filhos. Mesmo nos dias em que o reconhecimento não vem, o cuidado e o afeto criam novas memórias — momentos que fortalecem, silenciosamente, os laços familiares.

Por isso, eu disse ao meu amigo: Mesmo que seu pai não se lembre de você, você jamais esquecerá o pai que sempre esteve com você. Porque, no fim, quando a memória se perde, o amor permanece.