O céu como brinquedo- Crônica- Sérgio da Silva Almeida

A estudante — e primeira prenda mirim da 5ª Região Tradicionalista — Joana Lopes conquistou o primeiro lugar na categoria menor pandorga e o segundo lugar na categoria maior pandorga durante o 50º Festival Binacional de Pandorgas, realizado em Santana do Livramento, a Fronteira da Paz, e levou-me de volta aos tempos de guri, lá no Irapuá, quando o céu era palco e o vento, parceiro de brincadeiras.
Diz a história que a pandorga — também chamada de pipa no Rio de Janeiro, papagaio em São Paulo, quadrado no Paraná e bolacha na Bahia — surgiu na China antiga, centenas de anos antes de Cristo. Naquela época, era utilizada para fins militares, como comunicação, mensuração de distâncias e observação de posições inimigas — verdadeiros “drones” da Antiguidade. Mas bastou cair nas mãos das crianças para virar diversão, transformando o vento em brincadeira e o céu em liberdade.
Como, no colégio, minhas notas em artes nunca empinaram como uma pandorga — o uso de cola e papel nunca foi meu forte —, quem confeccionava as minhas era meu primo Dilton Brum Lago Júnior, conhecido como Agripino, de Santa Maria. Ele usava varetas finas de taquara, jornal ou papel colorido, linha de náilon e uma tira de pano que servia de rabiola para dar equilíbrio.
Lembro de sair correndo campo afora, com o coração acelerado e os olhos voltados para trás, vidrado em seu subir, na expectativa de empiná-la o mais alto possível. Se o vento estivesse fraco, o suador era certo. Mas, quando ajudava com uma lufada generosa, bastavam alguns metros de corrida — lá ia ela, leve e livre, ganhando altura — e aí era só dar-lhe linha, até o fio se esgotar na carretilha.
E agora, Joana Lopes nos lembra que, enquanto houver uma pandorga no céu, haverá diversões que não dependem de wi-fi — só de vento, linha e da vontade de fazer do céu um brinquedo, onde a simplicidade ganha asas e a infância reencontra sua liberdade.






