A Grande Final – Crônica – Dirceo Stona

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Na vida, sempre temos uma grande final a comemorar. Quando ela não aparece, ainda assim existe — e, de algum modo, a celebramos.
Nem sempre queremos certas grandes finais. Há finais que não pedimos, que não desejamos, mas que se impõem. E, nesses casos, resta-nos transformá-las em homenagem ao finalista — à vida que foi vivida.
Confesso: não quero para mim uma grande final como tiveram Oscar Schmidt ou Ayrton Senna. Prefiro uma despedida simples, quase silenciosa, sem excessos de memória. Talvez assim eu saiba — no íntimo — que vivi o suficiente.
Ao longo da vida, vi muitas dessas despedidas. Algumas grandiosas, outras discretas. Entre elas, a de meu irmão, João Dilmar Stona, que reuniu centenas de pessoas em sua última homenagem — inclusive aquelas que, em vida, talvez não se fizessem tão presentes. A morte, por vezes, tem esse estranho poder de convocação.
Mas a nossa passagem por este mundo guarda dessas ironias que muitos preferem explicar pela fé. No mês de abril deste ano, a vida apresentou duas grandes finais.
Uma foi a do médico Oscar Dutra, que viveu cada dia como se fosse único — e talvez por isso tenha entendido o que muitos passam a vida inteira tentando compreender.
A outra, a de Oscar Schmidt, o eterno “Mão Santa”.
Oscar foi mais do que um atleta. Foi um homem bem resolvido com o tempo — esse adversário invisível que a todos vence. Defendia a vida como se defende um último ataque: com intensidade, com presença, com entrega absoluta.
“Não brinque com a vida. Viva ela intensamente naquilo que você puder. Se você tem dez, viva dez; se você tem vinte, viva vinte; se você tiver muito, viva muito. Porque ela é uma só. E quando acaba, acabou.”
Sobre a doença, não falava em derrota. Falava em viver — sem medo — e em valorizar aquilo que realmente permanece: o amor, a família, os vínculos que não se medem em aplausos.
Hoje, em tempos de imagens fabricadas e homenagens digitais, até a inteligência artificial criou sua própria versão de uma grande final. Nela, num suposto “céu esportivo”, reuniram-se como lendas eternas o “Mão Santa”, o Rei do Futebol e o Rei das Pistas.
Bonito? Sim. Comovente? Talvez. Mas insuficiente.
Porque nenhuma imagem, por mais perfeita que seja, substitui aquilo que verdadeiramente importa: a vida vivida antes da grande final.
E, no fim das contas, é isso que fica — não o tamanho da despedida, mas a intensidade do percurso —