Falso 9 e jogador cobrindo a boca- Crônica- Dirceo Stona

Sou de um tempo em que São Sepé tinha três times de futebol: Bento, Iguaçu e Tabajara. Era futebol raiz. Havia apenas um juiz e dois bandeirinhas. Mandavam no jogo com autoridade.
Certa vez o juiz roubou — pelo menos foi o que a torcida decidiu. Coitado do homem, que tinha vindo de Caçapava do Sul. Levou um pau daqueles e nunca mais voltou para apitar em São Sepé. Dias depois, o jornal A Palavra estampava a manchete:
“Juiz do clássico Iguaçu x Tabajara não volta mais.”
Hoje não basta um juiz. São oito. Os que já não têm preparo físico para correr noventa minutos ficam confortavelmente instalados numa cabine climatizada. Se não concordam com quem está em campo, chamam o árbitro para uma conversa reservada diante de uma televisão.
Mudou tudo.
Agora o jogador não pode falar com a mão cobrindo a boca, mas pode chamar o juiz de ladrão sem esconder os lábios. A diferença é que será expulso. Bem… dependendo de quem seja. Se for o Messi, talvez a conversa seja mais diplomática. Afinal, já está velhinho.
Antigamente bastava um pé para marcar impedimento. Hoje um computador descobre posição irregular até pelo cabelo da sobrancelha. Do jeito que a coisa vai, a próxima regra será escalar apenas jogadores carecas.
Nesta Copa de 2026, tranças, dreads e cabelos coloridos fizeram tanto sucesso quanto alguns atacantes. Já o chip colocado dentro da bola marca impedimento pelos fios de cabelo…. Do jeito que as coisas andam, qualquer dia a própria bola pedirá substituição porque está cansada de tanto ser monitorada.
Lembro das chuteiras pretas do Tio Cunha. Eram todas iguais. Hoje há chuteiras rosas, amarelas, brancas e de tantas cores que, às vezes, parece desfile de moda. Dizem que a culpa é do VAR.
Quando o narrador falava que o juiz ia para o VAR, eu entendia “bar”. Pensava que ele fosse tomar um copo d’água. Depois imaginei que estivesse indo ao banheiro. Só mais tarde descobri que era Video Assistant Referee, o Árbitro Assistente de Vídeo.
Continuo gostando de assistir aos jogos pela televisão, comendo pipoca e tomando quentão. Mesmo assim, continuo sem entender muita coisa.
Inventaram agora um tal de “falso 9”. No começo imaginei que fosse falso porque o número 6 estava de cabeça para baixo. Depois me explicaram. Confesso que continuo preferindo minha teoria.
Quando sai um gol, vibro junto. Logo aparecem cinco ou seis jogadores correndo para cima do árbitro. Ele faz um retângulo com as mãos, enquanto o narrador anuncia solenemente:
— O juiz vai ao VAR.
Volta falando com tanta cerimônia que parece anunciar o casamento da Branca de Neve com o Príncipe Encantado.
Também gosto quando a bola bate na rede pelo lado de fora. Sempre penso que o chute foi tão forte que furou a rede.
Até que alguém estraga minha alegria:
— Senta. Não foi gol.
Quando menos se espera, metade dos jogadores corre para a lateral para tomar água. No meu tempo isso não existia.
A televisão mostra um torcedor no telão. Ele aponta para a câmera e grita:
— Mãe! Sou eu!
Como se a mãe estivesse em casa esperando exatamente aquele instante.
E há outra coisa que nunca consegui entender. Metade da torcida passa o jogo inteiro remando. fazendo gestos de remo enquanto outra parte grita “uau-uau-uau”. Calma não e palavra racista. Nunca vi barco dentro de estádio. Uns remam, outros pulam, outros ficam de costas para o campo. Às vezes tenho a impressão de que quem menos assiste ao jogo é justamente a torcida organizada.
No fundo, continuo gostando de futebol.
Só estou esperando criarem uma Copa do Mundo para quem ainda acredita que gol é quando a bola entra, o juiz aponta para o meio do campo e ninguém precisa consultar uma televisão para descobrir se pode comemorar.
Dirceo Stona
Inverno de 2026



