A Noite da Cadeira 31- Dirceu Stona 

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Era uma noite clara na terra do Barão de Mauá. As luzes da Praça Central cintilavam como se também participassem da festa. A literatura tem dessas coisas: ilumina, aquece e acolhe.

Foi nesse cenário que atravessei as portas da Câmara Municipal de Arroio Grande, envolto pela pelerine preta e dourada que, mais do que um traje, parecia um abraço da própria Academia de Letras e Artes de Arroio Grande.

Ser convidado pelo presidente, professor Claudenir Bunilha Caetano, foi mais que uma honra — foi o reconhecimento de uma caminhada feita de palavras: contos, poesias, crônicas e, agora, romance. As histórias que um dia nasceram tímidas no papel encontravam naquela noite o eco de muitos aplausos.

Meu coração batia acelerado por dois motivos.

O primeiro, por assumir a Cadeira nº 31, que pertenceu à poetisa Maria de Lourdes da Cruz Caetano, uma mulher que deixou versos espalhados como sementes, florescendo no tempo em seu livro Poesias do Meu Mundo. O segundo, por estar entre aqueles que fazem da ALAAG uma das arcádias mais atuantes do Rio Grande do Sul.

Do lado de fora, o Grupo SERENO embalava a cidade com música, como se a própria cultura tivesse ganhado voz e melodia. Do lado de dentro, a solenidade desenhava um daqueles momentos que ficam guardados na memória com tinta permanente.

Fui conduzido ao meu lugar ao lado da também neoacadêmica Andressa Barros. Ela, com emoção visível, liderou nosso juramento. Eu, com a voz embargada, fui chamado a falar. E como falar de literatura sem falar de quem nos ensinou a sonhar?

Homenageei a poetisa Maria de Lourdes, exaltando a força de suas palavras. Mas foi ao final, quebrando o protocolo, que minha voz se encheu de sentimento: pedi permissão ao presidente para dedicar aquela noite ao meu irmão, João Dilmar Stona, falecido em 19 de setembro.

Foi ele, meu primeiro leitor, quem me pedia, quando éramos crianças, que contasse a história de Dom Quixote e Sancho. Montados em cavalos de pau, planejávamos atacar os Moinhos de Vento. Era assim que a fantasia fazia morada entre nós — como no célebre romance de Miguel de Cervantes, onde a realidade se curva diante dos sonhos.

Naquela noite, compreendi: a literatura não se escreve sozinha. Ela nasce dos laços que nos unem, dos olhos que nos leem, das vozes que nos ouvem. Por isso, dediquei cada palavra, cada aplauso e cada emoção a ele.

Meu irmão mereceu essa homenagem. E a Cadeira 31 ganhou, para sempre, um pedaço da nossa história.