A Pressão de um amanhã imaginado-Crônica- Joice Figueiredo

Existe um costume silencioso que todos carregamos e quase ninguém percebe: o de acumular, por antecedência, uma carga que ainda nem chegou até nós. A gente acorda em uma sexta-feira como esta, já sentindo e pensando no final do dia. Visualiza o momento presente como uma via pública em que somos apenas alguém em busca de seu destino final, em rápida velocidade.
Enquanto crescemos, ouvimos de nossos pais que precisamos pensar no amanhã, economizando, planejando e nos preparando. E isso faz todo sentido. Mas não nos damos conta de que o amanhã, muitas vezes, pode deixar de ser o destino de cada um e passar a ser um juiz exigente. O tempo vai passando, e esquecemos de viver o hoje, pensando apenas no amanhã e no que pode vir a transcorrer.
Aos poucos, a relação com a família se distancia por pensarmos na carreira. Os abraços e os momentos entre nossos entes queridos duram cada vez menos, porque os pensamentos simplesmente estão em outro estágio, pensando no que será preciso resolver no dia seguinte. Enquanto as flores estão resplandecendo, nossos olhos permanecem presos em calendários que, muitas vezes, nem viraram.
A pressão, na maioria das vezes, vem de dentro da gente, daquela autocobrança de que estamos atrasados em relação à maioria das pessoas que têm a nossa idade. Com o passar do tempo, transformamos essa cobrança em medida de valores pessoais. E, por causa dessa exigência inefável, passamos a nos sentir insuficientes para tudo, por ainda não sermos alguém que só existe dentro da nossa cabeça.
Talvez o futuro nunca tenha nos pedido tanta pressa assim. Talvez seja a ansiedade fantasiada de compromisso com um futuro que ainda nem é nosso. A verdade é que a pressão por um amanhã imaginado tem um poder contundente: rouba a leveza de um momento real. Sucumbimos por um momento que ainda está por vir e deixamos escapar, por entre as mãos, talvez o único momento que poderemos ter com alguém.
Vivemos em uma infinita incerteza sobre quais caminhos vamos trilhar, quais planos irão se concretizar, quem irá permanecer e quem simplesmente vai nos deixar. E, no fim de tudo, de repente, o maior arrependimento talvez nem seja não ter chegado onde tanto planejamos, mas perceber que não vivemos tantos “hojes” planejando um amanhã que, para muitos, simplesmente nunca existiu.



