Affidano” Prof. Dra. Elaine dos Santos- Crônica

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Aposentei-me já faz alguns anos, mas era quase impensável perder a interlocução com o meio universitário, por isso, atende a uma das principais demandas de professores e acadêmicos, que é representada pela revisão de linguagem em artigos, dissertações, teses.
Essa nova atividade permite-me, cotidianamente, dialogar com estudos “de ponta”, que estão em andamento em grandes universidades. O meu assunto não é o meu trabalho, mas o que ele propicia.
Há uma professora que atua em uma universidade do norte do nosso estado e que fez estágio de pós-doutoramento em Lisboa, Portugal. Trata-se de uma docente do Programa de Pós-graduação em Educação, espaço que forma professores e pesquisadores para formarem novos professores ou atuarem em sala de aula. Ela trouxe uma perspectiva de estudos crescente naquele país: o cuidado de si.
A proposta não tem nada de inventivo, ela é um preceito que toda a sociedade deveria ter como referência: cuidar de si, no caso do professor, significa estar bem emocionalmente, mas estar bem preparado em termos de conhecimentos, para cuidar bem do aluno. Estamos pressupondo um aluno que venha de uma família minimamente funcional, porque, na verdade, em muitas situações, o professor será chamado a cuidar da família e da sociedade.
A maioria das pessoas não percebe (ou, se percebe, finge não notar) o papel que um professor exerce na vida de seus alunos (ou muitos deles). Não é rara, a confissão de ex-alunos que escolheram determinada profissão sob influência de um professor. Muitos alunos, sem a abertura necessária ao diálogo em suas casas, preferem conversar com professores que têm a sua confiança. Observo, na minha cidade, o grande número de professoras que atuam em festas diversas, ações sociais e que se engajam como presença de Deus (ou outra denominação) nas mais diferentes denominações religiosas para levar conforto a doentes, idosos solitários ou quem precisar.
Em outra revisão de texto, deparei-me com a expressão italiana “affidano”, que também não é uma novidade, vem do movimento feminista, mas, ao contrário da proposta das mulheres estadunidense, é uma proposição de igualdade, pertencimento e, sobretudo, confiança.
Em italiano, “affidano” traz a ideia de contar com alguém, fiar-se em alguém, sendo que, em português, encontra-se confiar em alguém, compartilhar com alguém. Levado para o cenário do feminino, representaria a ideia de, por exemplo, eu não sei cultivar uma horta, você me ensina? É a falada humildade de reconhecermos as nossas deficiências e pedirmos ajuda a quem sabe ou demonstra em gestos, ações que conhece mais do que nós.
Logo que li, eu pensei, preciso de alguém que me ensine a gostar de cozinhar.
Eu revisei um texto em que a autora, mestranda em Educação, usava o verbo “afidar” no sentido de “entregar uma criança aos cuidados de alguém” (um educador) e confiar na qualificação desse educador para fazer o seu melhor em prol dessa criança (Professores, pensarão comigo: “Almeja-se que essa criança traga requisitos básicos de casa como uma boa educação, respeito aos professores e aos colegas etc. e tal”. Concordo).
Quando lecionava para turmas de ensino médio, eu costumava insistir com os meus alunos para que estudassem, afinal, alguém estava trabalhando para que eles estivessem ali, eles tinham um compromisso com os seus provedores: os pais, os avós, os padrinhos, os tios. Inspirava-me no esforço dos meus pais para me concederem a formação básica.
Diante desses dois exemplos de professores que se decidam ao estudo do caráter humano da educação, apenas quis lembrar que todo professor é um ser humano, com família, com sonhos, com desejos, que – de um modo geral – esforça-se para levar o seu melhor para a escola. Ainda assim, eu tenho ciência, tomando como exemplo uma tese vinda do norte do país, que as escolas carecem de condições mínimas como internet para uso dos alunos. Esse professor. que refiro. precisou usar os dados móveis do seu celular para que os alunos realizassem as atividades de pesquisa.
Creio que o caminho seja menos discursos apocalípticos, menos discursos salvadores e mais intervenção no chão da escola, um efetivo amparo para quem, na sala de aula, encontra-se diante das adversidades. Talvez, “afidar-se” seja uma alternativa viável, um aprendizado comum em um mundo em que predomina a competição e, mais que isso, ninguém quer ter o trabalho de aprender, de pesquisar, de fazer. A nossa sociedade acomodou-se demais e espera demais dos nossos professores.