Chorar é o último recurso- Sérgio da Silva Almeida- Crônica

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João Francisco Severo, o capitão Severo, ou simplesmente Joca, nasceu em Candelária e, em 1940, aos 5 anos de idade, mudou-se com os pais para Cachoeira do Sul, de onde, na segunda-feira, retornou serenamente à casa do Pai Celestial. Desde a juventude, Joca escrevia poemas e, com justiça e honra, tornou-se acadêmico da Academia Cachoeirense de Letras, ocupando a cadeira 23. Sua participação, aos 90 anos, no Poetas do Vale 14, lançado na Feira do Livro do ano passado, hoje soa como um gesto de despedida delicada, quase um aceno silencioso para todos nós. Como quem diz: “Cumpri minha missão entre as palavras”.
Em seu poema “Minha história”, Joca nos lembra que o tempo passa, mas não apaga aquilo que realmente fomos: “Curtidos mundão de anos, os eventuais erros humanos, arquivados na memória. Marcos da imensa distância, que tenho hoje da infância, partes da minha história”. Já “Velhice” é a poesia de quem aprendeu que envelhecer é transformar o jeito de olhar e de sentir a vida: “Olhava o mundo de frente, não temia enfrentamento, na velhice mudou tudo, até a força do vento”.
Em “Netos e bisnetos”, Joca nos mostra que sua maior obra não estava apenas nos livros, mas na família que construiu, no amor que deixou como herança: “Meus netos e bisnetos, relíquias da vida, jamais pensei que seriam tão lindos. Meus descendentes, todos bem-vindos, viver para eles é prioridade de vida”. E apresenta o Léo, que mais cedo chegou, o Antônio, mais de 20 anos depois, o Gustavo, que não destoou, a Maria, estimada patinha, a Julinha, magricela querida, o Gabriel, o João, o Guilherme e a Ana Alice, a netinha caçula.
Mas talvez seja em “Chorar é o último recurso” que o candelariense mais se aproxima de um “até logo!”: “Quando perdemos um ente muito querido, ou um grande amor nos houver esquecido, somente sobra o triste consolo: chorar”. E, por fim, nos deixa um conselho cheio de humanidade: “Chorar é a instância final que apenas acalma, é analgésico genérico contra dores da alma, que por certo minora o humano pesar”.