Das Diretas ao voto- Sérgio da Silva Almeida- Crônica

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Domingo, eu estive ao lado dos meus pais, José Benemídio e Amália, na Palma, distrito de Barro Vermelho, para votar nas eleições. Embora eleitores com 70 anos ou mais não sejam obrigados a comparecer às urnas, meus pais seguem exercendo seu papel de cidadãos e contribuindo para a democracia.
Para mim, porém, aquele momento foi muito mais do que acompanhá-los até uma seção eleitoral. Foi uma viagem no tempo. Voltei à infância, à década de 1980, no Irapuá, quando, certo dia, minha mãe nos chamou — a mim, meu irmão Enaldo e minha irmã Jane — para contar que nosso pai havia ido a Brasília participar do movimento Diretas Já!
A reivindicação era clara: garantir ao povo brasileiro o direito de escolher diretamente o presidente da República. Naquela tarde, vimos pela televisão as manifestações, que aconteciam de forma pacífica, as faixas que anunciavam o desejo de um povo — “Eu quero votar para presidente” — e as cenas da repressão que marcaram aquele momento. Porém, o que permaneceu vivo em mim foram as palavras de dona Amália, que, com os olhos marejados e o coração tomado pela apreensão, nos preparou para o pior: “Filhos, talvez seu pai não retorne para casa com vida.”
Exagero? Talvez. Mas, como crianças criadas no interior, não tínhamos a mínima noção do que aquilo representava. Mesmo assim, a possibilidade de nosso pai não voltar nos causou medo e nos fez chorar.
Quatro décadas depois, lá estava ele, entusiasmado, novamente diante de uma urna, colinha em mãos, apertando as teclas para exercer um direito que ajudou a reivindicar e que, anos depois, se tornou realidade.
Foi impossível não me emocionar diante da dimensão daquele instante. O homem que um dia saiu de casa para defender a democracia, aos 88 anos, estava novamente diante da urna, exercendo, com as próprias mãos, aquilo que ajudou a conquistar. “É pelo futuro de meus filhos, netos e bisnetos”, me contou. Naquele instante, a história do meu pai ganhou, para mim, um significado ainda maior.