É preciso conhecer para entender e respeitar- Crônica- Elaine dos Santos

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Em 2026, o Rio Grande do Sul comemora 400 anos das Missões Jesuíticas. Talvez, seja melhor afirmar que uma parte do Rio Grande do Sul esteja comemorando 400 anos da fundação da Missão de São Nicolau, ocorrida em 3 de maio de 1626, pelo Padre Roque Gonzales.
Jesuítas vindos do Paraguai fundaram inúmeras missões ou reduções (os indígenas eram “reduzidos” a um determinado espaço para serem protegidos da violenta saga escravizadora dos bandeirantes paulistas) no território do Tape, chamemos de Rio Grande do Sul.
Cabe lembrar que, pelo Tratado de Tordesilhas, assinado entre Espanha e Portugal, em 1494, as terras localizadas a leste de uma linha imaginária seriam portuguesas; as terras situadas a oeste seriam espanholas. A linha imaginária passava pela atual cidade de Belém (PA) e findava-se nas cercanias de Laguna (SC), perdendo-se no mar. Éramos território espanhol!
Existe um primeiro ciclo missioneiro no Rio Grande do Sul, que se inicia com a fundação de São Nicolau (1626) e que se estende até 1638.
Isso não significa que indígenas de diferentes etnias não habitassem o território antes, mesmo sem qualquer contato com os padres jesuítas e se espalhassem pelas mais variadas regiões.
Nesse primeiro ciclo, foram fundadas reduções como Caraó (em que o Padre Roque Gonzales foi morto e, séculos mais tarde, seria santificado pela Igreja Católica); Candelária do Ibicuí, na região de Mata; São José de Itaquatia, no rincão de São Pedro, entre Mata e São Pedro do Sul; Jesus Maria, perto de Candelária; Santa Ana, nas cercanias do rio Jacuí, entre Agudo e Paraíso do Sul; Nossa Senhora da Natividade, à margem direita do rio Jacuí, que se localizaria entre Pinhal Grande e Júlio de Castilhos (alguns estudiosos consideram que Natividade pode ter existido, em uma segunda fase, no município de Restinga Seca); entre outras.
Há poucos resquícios dessas reduções que foram abandonadas pelos padres e pelos indígenas diante das ofensivas dos bandeirantes luso-brasileiros que vinham em busca de escravos entre a população indígena para trabalho forçado no centro do país.
É sempre relevante mencionar que os jesuítas introduziram o gado no Rio Grande do Sul e, conforme a historiadora Sandra Jatahy Pesavento, foi justamente a pecuária que determinou o interesse da Coroa Portuguesa por essa região.
A pecuária seria o fundamento econômico que justificaria a ocupação do território sul-riograndense.
Diga-se de passagem, quando os jesuítas deixaram as antigas Missões do primeiro ciclo, o gado, que eles criavam, foi solto e reproduziu-se indiscriminadamente, ampliando em grande número o plantel.
Os jesuítas retornariam ao Rio Grande do Sul em 1682, por orientação da Coroa Espanhola, quando se iniciou a fundação dos chamados Sete Povos: São Borja (1682), São Nicolau (1687), São Luiz Gonzaga (1687), São Miguel Arcanjo (1687), São Lourenço Mártir (1690), São João Batista (1697) e Santo Ângelo Custódio (1706).
Além dos ensinamentos religiosos, da proteção aos indígenas da etnia guarani, havia escolas de música, carpintaria, produção agrícola e pecuária, que lhes permitia comercializar carne e erva-mate com Buenos Aires.
Com o Tratado de Madri, em 1750, entre Espanha e Portugal, os Sete Povos das Missões, até então território espanhol, passariam para o domínio português, o que revoltou os padres e os indígenas, que se negavam a abandonar as suas moradas, as plantações, os seus antepassados, enterrados nos cemitérios locais. Emergiu a Guerra Guaranítica (1752 – 1756).
É sabido que, em 1754, no Passo do Jacuí, atual município de Restinga Seca, houve um encontro entre tropas luso-brasileiras, comandadas por Gomes Freire, que se dirigiam para a tomada das Missões, e indígenas missioneiros que impediram o seu avanço, fazendo-as retroceder, depois de cerca de dois meses de negociações.
Eis o ponto que quero enfatizar: em quase toda a nossa região, existem resquícios indígenas, cambucas, cambonas, pontas de lanças, urnas funerárias etc. Nos diários de viagem dos padres jesuítas, faz-se referência ao rio Vacacaí Grande e ao rio Vacacaí Chico, indicando que eles transitavam em território do atual município de Restinga Seca.
Em Formigueiro, também há objetos encontrados em lavouras, que demonstram a passagem indígena pela região. É importante referir que estudiosos das Missões avaliam a possibilidade que aquele território tenha sido uma das estâncias de criação de gado da Redução de São João Batista.
Será que eu preciso referir a efetiva e afetiva ligação entre o município de São Sepé e um certo líder guarani, morto em 1756, na defesa dessa terra que ele amava e garantia que tinha dono?
Já passou da hora de nossa região entender que também fomos, somos missioneiros e que há um vasto campo de pesquisa para ser desbravado, esmiuçado.
Existe um forte traço, já identificado por pesquisadores: São Sepé, Formigueiro, Restinga Seca, entre outros, tem uma gente que se denominou chamar “pelo duro”. É hora de ter orgulho dessa linhagem bem gaudéria: português, negro e indígena (ou não?).
Elaine dos Santos – Prof. Dra. em Letras