Em tempos de festejos farroupilhas – Elaine dos Santos – Professora universitária aposentada.

Artigo de Opinião.
Durante a graduação em Letras, integrei um grupo de pesquisa que se dedicava ao estudo da História e da Literatura do Rio Grande do Sul. Essas atividades determinaram inúmeras leituras desde a ocupação do estado até a contemporaneidade e o estabelecimento de vínculos com a Literatura aqui produzida.
Dois anos após a conclusão do curso de Letras, ingressei no Mestrado Acadêmico. O ano era 1999, havia raro acesso à internet, mas a minha pesquisa estava praticamente encaminhada. Analisei o romance “Camilo Mortágua”, de Josué Guimarães, que abrange a primeira metade do século XX, culminando nos cinco primeiros dias de abril de 1964.
Há fatos, porém, muito relevantes na História do Rio Grande do Sul, que são retomados pela Literatura sob diferentes óticas: as Guerras Guaraníticas, a imigração (alemã, italiana, judaica), entre outros. E existe a Guerra dos Farrapos, que se desenrolou entre 1835 e 1845.
Uma das primeiras poetisas sul-riograndenses, Delfina Benigna da Cunha, compôs versos do mais puro ódio a Bento Gonçalves. “O corsário”, romance de Caldre e Fião, deixa entrever em suas linhas que a Província revoltosa restara devastada – sobretudo, do ponto de vista econômico – após os conflitos.
Em 1868, em Porto Alegre, foi fundada a Sociedade Partenon Literário, haviam se passado 23 anos do término da Guerra dos Farrapos. Entre os propósitos do Partenon estava o combate ao analfabetismo, a divulgação cultural, entre elas as principais ideias em voga no centro do país, que chegavam com largo atraso ao Rio Grande do Sul.
Em 1870, no Rio de Janeiro, sem nunca ter estado no Rio Grande do Sul, o romancista José de Alencar publicou “O gaúcho”, que tinha Manoel Canho como protagonista e os campos farroupilhas como pano de fundo. Apolinário Porto Alegre, um dos líderes do Partenon, escreveria “O vaqueano” para corrigir os supostos erros de Alencar. Restou, porém, uma obra sem muita qualidade.
O regionalismo gaúcho ganharia destaque em “Contos gauchescos”, de Simões Lopes Neto, sob a narração do genuíno tipo rio-grandense, Blau Nunes. É muito bom lembrar-nos de Blau Nunes contando a peleia entre Bento Gonçalves e Onofre Pires por causa de uma castelhana (na verdade, nem Blau Nunes sabia se o duelo fora, de fato, por uma castelhana).
Pairam, porém, duas questões sobre os farroupilhas. A historiadora Sandra Jatahy Pesavento afirma que, muito mais que os ideais republicanos e abolicionaistas, os grandes estancieiros defendiam a melhoria no preço do charque, que era mais caro que o charque comprado no Uruguai, e o pagamento/recompensa pelo gado, pelos cavalos e pelas tropas que forneciam em tempo de guerras entre o Império do Brasil e seus vizinhos do Prata.
Ainda assim, o evento que mais desperta curiosidade e tem atraído pesquisadores é o chamado “Massacre de Porongos”. Afirma-se que, no acerto com o governo imperial, os farrapos teriam se comprometido a sacrificar os negros escravos, que lutaram com o sonho de liberdade, o fim da escravidão.
Aqui, é importante frisar que a História oficial é sempre contada pelos vencedores. A grande batalha de Waterloo, perdida por Napoleão Bonaparte, tem a versão daqueles que o derrotaram, jamais soubemos uma linha da História sob a ótica dos soldados do militar francês, vencidos, capturados, talvez torturados e mortos.
Faço essa observação, porque, até pouco tempo, sabia sobre Porongos e a falta de evidências a respeito da motivação que levara à morte dos lanceiros negros tão bem-preparados – ainda que se saiba que eles estavam desarmados. Recentemente, em Arroio Grande/RS, recebi informações documentadas sobre a derradeira batalha da Guerra dos Farrapos: ela não ocorrera no Cerro de Porongos, mas às margens do Arroio Chasqueiro.
José Teixeira Nunes, militar, republicano, abolicionista, conhecido como Coronel Gavião, foi um dos comandantes dos Lanceiros Negros e escapou com uma parte deles, refugiando-se nas proximidades do Arroio Chasqueiro, hoje município de Arroio Grande. O Coronel Gavião lutou até 26 de novembro de 1844, mesmo após tombar do cavalo, ser ferido e, finalmente, morto. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, já havia uma minuta do acordo de paz.
O Coronel Gavião e uma parte dos Lanceiros Negros tombaram em Arroio Grande, na Batalha do Chasqueiro, e o corpo do farroupilha encontra-se sepultado sob a antiga capela, que foi substituída pela atual igreja. Em março de 1845, assinava-se a paz em Ponche Verde.
Insisto sempre que estudar, pesquisar, juntar retalhos é preciso. Recuperar eventos, figuras importantes na nossa História como povo é relevante para que mantenhamos a nossa identidade. Foram anos de sofrimento e dor, mas foram anos de coragem, de luta e, entre alguns, crença inabalável nos ideais de liberdade e igualdade entre os homens.
Elaine dos Santos – Professora universitária aposentada.

A imagem é de domínio público, mas integra uma Mostra chamada “‘Heroísmo Farroupilha – Um Outro Olhar sobre os Lanceiros Negros” em exposição na Assembleia Legislativa do estado a partir do dia 16/09, amanhã.





