Idoso, eu? Bah! – Crônica- Sérgio da Silva Almeida

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A entrada nos 60, para mim, foi especial. Meu irmão caçula, Alex, o Sapo, trouxe meus pais, Benemídio, de 88 anos, e Amália, de 77, a Caxias para passarem o fim de semana comigo. Difícil imaginar presente melhor de ingresso na melhor idade.

No instante em que a Marta, rindo, me disse: “Agora já pode tirar a carteira de idoso”, lembrei de um dia em que eu estava há bastante tempo numa fila e, quando finalmente chegou a minha vez, um senhor me antecedeu por prioridade, depois outro e, por fim, uma senhora. E, com bom humor, respondi: “Agora chegou a minha vez — e não estarei furando a fila, apenas exercendo um direito”.

Há uma máxima que diz: respeitar a pessoa idosa é tratar o próprio futuro com respeito. No dia 4, pela lei, passei a ser considerado idoso, com direitos garantidos — atendimento prioritário, vagas reservadas em estacionamentos, gratuidade no transporte público urbano e meia-entrada em eventos. Bah! Alguns me perguntaram como estou me sentindo. Respondi que é uma sensação diferente em relação aos 50, quando já temos o caminho e seguimos caminhando nele. Aos 60, passo a escolher melhor como caminhar — com mais consciência e menos correria.

Mas, cá entre nós, ainda que a lei me chame de idoso, estou longe de me sentir limitado pela idade. Mesmo assim, as palavras de Moisés, em seu único salmo, tomaram conta dos meus pensamentos: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio”. Essa foi a oração que fiz ao Pai Celestial, pois contar os nossos dias não é sobre quanto tempo vivemos, mas sobre como escolheremos viver enquanto tivermos tempo. Como na famosa reflexão: “Tenho os anos que me restam; os que vivi não os tenho mais”.

E, se você me perguntar o que mudou, te respondo: não foi a capacidade — foi a forma de enxergar. Há mais clareza e menos pressa, mais consciência e menos necessidade de provar algo para alguém, mais intenção e menos desperdício de tempo com o que não faz sentido.

Se antes a corrida era para alcançar, agora é para escolher — escolher melhor onde investir tempo, energia e presença. E sigo assim — um “sessentão” em movimento, com muita vontade de fazer acontecer