Infância em conserva- Crônica- Sérgio da Silva Almeida

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Sou do tipo que pula fora do carnaval. Porém, no dia seguinte, pelas redes sociais, me chamou a atenção a escola de samba que desfilou famílias dentro de latas. Confesso que me reconheci naquelas latas: minha infância também foi em conserva.

Meu avô me acordava de madrugada para matear à beira do fogão à lenha, ouvindo as notícias pelo radinho de pilha. Depois que retornou à casa do Pai Celestial, deixou registrado em um caderno que a cuia, a bomba e a chaleirinha de inox ficariam para mim.

Minha avó servia café com leite fresquinho, ordenhado da vaca minutos antes, acompanhado de pão de milho, manteiga caseira e rapadura de amendoim, tudo feito por ela — deu água na boca, né? Quando o relógio se aproximava das 12 badaladas, colocava a cabeça para fora da porta e avisava: “Almoço está na mesa!”. Levava à mesa, religiosamente, ao meio-dia, só para poder ouvir a Hora das Comunicações pela Rádio Caçapava — a rede social da época. Depois, servia doces em conserva: figo, pera, pêssego… — deu água na boca de novo, né? — menos abóbora, que eu nunca gostei.

Meu pai era mecânico e minha mãe tinha um bar ao lado da oficina, à beira da BR-290. Abriram mão de muito para que nós quatro filhos tivéssemos educação e estudo de qualidade. Lembro de minha mãe nos levando para a escola, em Cachoeira do Sul, a 70 quilômetros de distância — ela fazia 280 quilômetros todos os dias — e retornando para trabalhar.

 

No fim da tarde, quando as aulas terminavam, lá estava ela no estacionamento, com o Corcel ano 1969, nos esperando. A gente saía no maior gritedo, cada um querendo contar como foi o dia. Ela parava na padaria, pegava um cacetinho grande e patê, e nós retornávamos para casa na maior algazarra.

 

Por ter tido uma infância simples, mas feliz, digo à escola de samba cuja ala desfilou famílias dentro de latas: sou um enlatado, sim. Sou quem sou e cheguei aonde cheguei graças aos meus avós e pais, que me “enlataram” com cuidado, amor e respeito.

 

No que diz respeito à tentativa de ridicularizar a família, respondo recorrendo às palavras de Jesus: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”, pois, ao contrário do que pensaram, de certa forma, prestaram homenagem à minha infância em conserva.