Nós e todas as outras, nossas irmãs! Crônica- Prof. Dra. Elaine dos Santos.

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Em algum momento na sua vida, você já viu uma mulher sofrendo – física ou emocionalmente – em uma relação conjugal, marital, diante de um homem, “macho alfa”, que lhe exige submissão ou lhe ataca com palavras, socos, tapas, pontapés, machuca o corpo e a alma?
Como todos sabemos, o Brasil vive uma avalanche de feminicídios, em que a morte da mulher se concretiza pelas mãos de maridos, companheiros, “ficantes” etc. É grande também o número de feminicídios tentados e, neste caso, restam sequelas gravíssimas para essa mulher.
Tem algo que, particularmente, dilacera-me como ser humano: há filhos que precisam sobreviver, geralmente, sem a mãe, que é morta, sem o pai, que se torna presidiário.
Daquele encontro improvável entre Manuela D’ Ávila e Cíntia Chagas surgiu a proposta de escritura de um livro, mais que sororidade entre duas mulheres de espectros ideológicos diferentes, alguns críticos trouxeram à tona o conceito de “dororidade”, da filósofa Vilma Piedade.
O termo sororidade remete à ideia de acolhimento de mulheres. Sóror, de origem latina, significa, literalmente, irmã, embora seja comum em contextos religiosos, tem sido usada com a idade de irmandade (sororidade) independente de etnia, classe social, religiões, etc.
Dororidade, por sua vez, vai além, porque busca dar conta das dores de mulheres negras, o que se associa ao racismo, ao subemprego. Aqui, o termo dororidade dialoga, no meu ponto de vista, com o alto índice de feminicídios no Rio Grande do Sul, no Brasil.
Se a mulher negra tem a sua história “apagada”, subtraída, se desde os primeiros anos da abolição (1888) e da República (1889), coube-lhe vender a sua força laboral como lavadeira de roupas, faxineira, babá e, muitas vezes, foi-lhe impossível prover os seus filhos e as suas filhas com educação formal, ela foi um ser humano que serviu e “foi apagado” pelo tempo.
A analogia com os feminicídios vem dessa macabra estatística, que retira o nome das mulheres – pretas, pardas ou brancas – e que as faz parte dos números de mortes por mês, por semestre, por ano.
Essa analogia vem também da dor do existir, da falta de instrução (ou não!) de tantas Marias, Anas, Camilas, “fêmeas beta”, submetidas ao poder do macho, que as silencia, que as exclui dos relacionamentos sociais, que as tornam serviçais, “rainhas do lar”.
Somos uma sociedade machista, assentada no poder do homem (aquele antigo provedor do lar, “respeitador” do lar, da moral e dos bons costumes), uma sociedade patriarcal (baseada no poder do “pater”, pai), que não se deu conta que a mulher precisou ajudar ou prover o lar financeiramente, que ela não tem tanta disposição para três turnos de trabalho, sem a colaboração do marido ou do companheiro – ela não serve mais só para servir.
Sororidade e dororidade, de outra forma, deveria chamar a atenção também para as demais mulheres (o que eu chamo de mulheres machistas), que endossam atitudes preconceituosas e misóginas de homens, a quem se deveria fazer repensar as suas falas, os seus comportamentos.
Aristóteles, 2500 anos atrás, defendia que os homens deveriam sentir prazer com outros homens (a pederastia) e que mulheres serviam para parir e cuidar dos filhos. Evoluímos em tantos aspectos, será que é tão difícil não odiar mulheres autônomas, emancipadas, conscientes das suas responsabilidades e que atuam no mundo para mitigar a dor de quem cruza o seu caminho?
Será que é tão difícil acolher a dor da próxima, daquela que, por ser mulher, pode ser a próxima vítima? Lamentar depois é somente lamentar depois.