O ATO DE ROSA PARKS: Francisco Melgareco

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Há menos de 70 anos, pessoas negras eram obrigadas a levantar-se para cederem os assentos a pessoas brancas nos ônibus da cidade de Montgomery, capital do estado do Alabama, nos Estados Unidos.

Embora hoje pareça absurdo, podemos considerar isso como parte da história recente.

Os “ônibus segregados” foram, por muito tempo, símbolos de humilhação e desrespeito à raça negra, até que Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar.

Rosa Parks vinha de mais um dia de trabalho. Ela estava cansada, não apenas fisicamente, mas também mentalmente naquele dia.

É instinto de todos nós preservar nosso direito humano à igualdade neste planeta, e naquele dia uma chama de resistência ardia em seu peito. Ela pegou o ônibus e ocupou uma das poltronas vazias. Pessoas brancas entravam, pessoas negras se levantavam e davam lugar. Rosa Parks ficou sentada.

Passageiros brancos estavam incrédulos e indignados com o não cumprimento da lei (sim, era lei no estado). Infelizmente, ainda somos um mundo com reflexos de um passado de crueldade humana que não acabou lá e deixou muitas marcas.

Aquela mulher negra teve a coragem de quem entra em uma jaula de leões famintos. No entanto, só chegar em casa viva já não bastava. Ela desejava retornar para casa mantendo consigo a dignidade que era forçada a abandonar naqueles assentos diariamente.

A atitude de Rosa Parks lhe custou a prisão naquele dia. Em contrapartida, o que se seguiu foi um movimento de união e mobilização de mais de quarenta mil usuários negros do transporte público, que aderiram a um boicote geral aos ônibus no dia do julgamento de Parks. Eles também improvisaram um sistema de “caronas”, para que todos pudessem chegar a seus trabalhos, contando com a ajuda de taxistas negros da cidade.

O boicote, que era para durar um dia, se estendeu e virou um movimento, escolhendo como seu líder um jovem pastor que era novo na cidade: Martin Luther King Jr.

O ano era 1955, e o movimento durou até o ano seguinte. Houve um grande prejuízo para as empresas de ônibus e muitos problemas para todos os envolvidos no processo.

Em fevereiro de 1956, o boicote foi considerado ilegal, pessoas foram presas, incluindo Martin Luther King e novamente, Rosa Parks, causando indignação e comoção em todo o país. Logo, outras comunidades negras também aderiram ao movimento. Surgiram também grupos radicais racistas, que agiam com violência e ameaças.

O caso de Rosa Parks seguia pelos tribunais até finalmente chegar à Suprema Corte, no fim de 1956. A corte decidiu ser inconstitucional a lei sob a qual Rosa Parks havia sido presa, fazendo com que os “ônibus segregados” se tornassem algo do passado. Toda essa revolução culminou mais tarde na assinatura da “Lei dos Direitos Civis” pelo presidente Lyndon Johnson, que tornou ilegais quaisquer tipos de segregação racial em todo o país.

Atos como o de Rosa Parks precisam ser lembrados. Afinal, como bem disse Edmund Burke, “quem não conhece a história está condenado a repeti-la”. Estamos todos no mesmo “ônibus”, dependemos dele e precisamos de respeito e harmonia para chegarmos em casa seguros ao final de cada dia. O caráter não tem cor, precisamos refletir todos os dias sobre atos do passado que não podem se repetir no presente e no futuro.

Foi assim que uma corajosa e forte mulher negra entrou para a história, tornando-se símbolo de uma luta que, infelizmente, dura até os dias atuais. Nosso ônibus segue seu caminho ainda com pessoas sem direito a um lugar nele.

É preciso resistir. E quem sabe um dia, esse mundo não precise mais de revoluções e batalhas para que simplesmente cada um tenha o direito fundamental da igualdade. Se King dizia, em seu mais famoso discurso, “eu tenho um sonho”, que esse sonho possa ser de todos nós, e que toda vida tenha o mesmo valor, independentemente de sua cor.