O avesso de um corpo – crônica – Joice Figueiredo

O avesso do corpo, que não é mostrado desde que nos conhecemos por gente, é onde somos
ensinados, quando pequenos, a engolir o choro, gerando, assim, uma angústia que tranca na
garganta e, com o tempo, vai abrindo uma ferida que parece nunca se curar. É o que
carregamos por dentro: memórias, experiências boas e ruins, dores que a gente tenta que, com
a vida, sejam curadas e que acabam deixando marcas silenciosas.
É também aquilo que tentamos esconder de nós mesmos. É o dilema que vivemos a vida
inteira tentando resolver. É a parte do corpo que, ao mesmo tempo em que nos faz sentir as
melhores pessoas do mundo, é aquela que nos sabota por inteiro. São os sentimentos que não
colocamos para fora, os pensamentos que, no calar da noite, nos atravessam. É o que
sentimos de mais intenso e verdadeiro.
É no avesso do corpo que o pedido de socorro grita muito alto. É de lá que vem toda
decepção com aquele alguém tão próximo e também a tentativa frustrada de tentar
entendê-los. É a dificuldade de engolir atitudes da sociedade que vão contra nossos próprios
valores. É de onde vem a postura firme, para tentar se proteger de uma sociedade tão
medíocre.
É de lá que vêm os sentimentos perdidos, de alguém que não entende nem a si próprio. É do
avesso do corpo que o coração se desorganiza quando é muito exigido. É onde se misturam
culpas e mágoas, e é onde a gente tenta apenas aprender a conviver com elas dentro de nós. É
onde, muitas vezes, nos sentimos presos demais, por simplesmente sentirmos demais.
É onde mora o descompasso de não aceitar o que é ruim e sem significado. É onde o peso dos
gestos indiferentes é visto como injustiça. É onde as mágoas se entrelaçam e depois se tornam
uma dificuldade enorme de se dividir. É o lugar onde tudo se sente, tudo se confunde e pouco
é compreendido. É onde vive a verdade que ninguém quer olhar, aquela que se desenha entre
essência e bondade.
É de dentro que nos sensibilizamos com as situações difíceis da vida, mesmo sem expressar
uma palavra. É de dentro que vem o medo, a angústia e toda insegurança, mas também é de
dentro que vem aquela coragem silenciosa de seguir sempre em frente, depois de tantas
quedas da vida. É ali que a resiliência regenera outra vez, mesmo depois de tantas
dificuldades.
É, talvez, nesse avesso confuso, que a vida acontece e não nas superficialidades humanas,
mas na essência que carregamos ao sentir, na força inexplicável de cada um, na dificuldade
de aceitar ser igual a todo mundo, de pensar o que todo mundo pensa e, principalmente, na
dificuldade de agir como todo mundo age.





