O Frio de 2026 – Crônica- Dirceo Stona

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Os livros de História, o Google ou os sites de IA, registram as enchentes de 1941, a
pandemia de 2020 e a grande estiagem do início da década. Esqueceram, porém, de
mencionar o inverno de 2026. Talvez porque, durante trinta e três dias, ninguém tenha
conseguido escrever uma única linha.
Houve vários dias, em junho de 2026, em que o mundo desapareceu, parou sem sair do
lugar.
Não foi a escuridão que o escondeu. Foi o frio.
Primeiro cessaram os movimentos. Depois cessaram as vontades. Em seguida, até as
moléculas desistiram de vibrar, como se a temperatura tivesse atravessado o zero absoluto
e encontrado um lugar ainda mais impossível.
Durante trinta e três dias e trinta e três noites ninguém caminhou. Os cães permaneceram
imóveis como esculturas. Os bois conservavam nos beiços fios de baba transformados em
estalactites. Os homens urinavam gelo em pé ,campo a fora.
Diziam que até o fogo vestira um poncho de lã, forrado de pelego, e se recusava a aquecer
qualquer coisa.
Os poucos olhos que ainda pareciam vivos pediam apenas duas coisas: mais lenha seca e
menos nuvens, para que o Sol voltasse a lembrar que sua superfície ultrapassa cinco mil
e setecentos kelvins.
As guerras do Oriente Médio também congelaram. Não houve vencedores nem vencidos.
Generais permaneceram com o dedo suspenso sobre mapas. Presidentes ficaram imóveis
em seus gabinetes. Pela primeira vez, a paz não nasceu da razão, mas da impossibilidade
do movimento.
Quando o mundo voltou a respirar, ninguém conseguiu dizer se havia transcorrido um
mês ou um segundo. Talvez o tempo também tivesse congelado.
Até hoje meus neurônios procuram onde esconderam as lembranças daquele inverno de
2026.
Sempre que alguém me diz que aquele frio nunca existiu, sinto um arrepio. Não por
discordar deles, mas porque começo a acreditar que fui o único a descongelar a
memória.