Permita-me contar algumas Histórias (verídicas)? Professora Dra. Elaine dos Santos

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Como se sabe, Joseph (ou José) Yarayu (Tiaraju) é santo desde que morreu. Sepé pertencia a terceira geração de indígenas que fora criada nas Missões, educada conforme os ensinamentos que lhes foram levados pelos padres jesuítas espanhóis que ocuparam a região.

José Tiaraju trazia no próprio nome parte do violento processo de ocupação do Rio Grande, do Brasil, da América – a miscigenação. Conforme o frei Luiz Carlos Susin (2019, s/p) “- De um lado temos essa percepção popular difusa, que afirma Sepé como Santo pela voz do povo, recebendo desse mesmo povo a devoção ao modo dos santos católicos, de onde procede o título que lhe é dado: São Sepé”. De outra forma, “podemos destacar essa característica de não ter sido vencedor, ser justamente uma vítima da política de dois impérios agressores, martirizado assim como foi o povo pelo qual lutava”.

Sepé Tiaraju, como se sabe, insurgiu-se contra o cumprimento do Tratado de Madri, celebrado entre Espanha e Portugal, em 1750, e que determinava a entrega dos Sete Povos das Missões (ao que consta, ele nascera em São Miguel) aos portugueses. Corregedor da estância e povoado de São Xavier, os historiadores localizam-nos em quatro passagens de grande envergadura para a luta guarani em defesa do seu território: 1. O confronto em Santa Tecla (nos primeiros meses de 1753); 2. Os ataques a Rio Pardo e seus desdobramentos (em abril de 1754); 3. A negociação de trégua com Gomes Freire às margens do Rio Jacuí (quase ao final de 1754); 4. A sua morte em Caiboaté, São Gabriel (em 1756).

É sabido que se encontra em trâmite no Vaticano o processo de beatificação de Sepé, autorizado em 2018, e que cabe à Diocese de Bagé (região administrativa da Igreja Católica em que se situa São Gabriel, local da morte do herói guarani) dar-lhe prosseguimento.

Mas, como restinguense que sou, permitam-me incluir a minha terra nessa História. Os pesquisadores consideram que o encontro entre as tropas portuguesas, comandadas por Gomes Freire, e os caciques e demais indígenas guaranis acontecido em 1754 na localidade do Passo do Jacuí, atual território de Restinga Seca, representa um dos grandes momentos das Guerras Guaraníticas e que o acerto firmado entre o militar português e os indígenas teria retardado em quase dois anos o massacre nas Missões. Sepé Tiaraju esteve em solo restinguense e o comprova o diário do padre que acompanhava Gomes Freire – cabe ressalvar que Sepé não era cacique e não assinou o acordo com o militar português. 

A bem da verdade, é preciso mencionar que o Rio Jacuí também operou a favor dos nossos nativos, uma grande cheia colocou as tropas portuguesas em apuros: mantimentos, munição, tudo molhado, e os soldados nas copas das árvores. Era quase impossível não recuar. O que é possível inferir que se tratou de um acerto diplomático – de um lado, os indígenas tinham cerca de 1.500 combatentes, do outro lado, a cheia do rio e as tropas cansadas demandavam a retirada portuguesa. Em 1756, entretanto, o guerreiro tombaria, a morte o encontraria em Caiboaté. As suas lembranças, contudo, serão eternas do lado de lá e do lado de cá do Rio Vacacaí Grande, mas também permanecerão às margens do Rio Jacuí, gritando alto que “esta terra tem dono”.

Sobre o nome do município de São Sepé, como se sabe, há controvérsias (aliás, como há controvérsias sobre o nome de Restinga Seca), mas isso fica para outro dia, outra coluna, outro “dedo de prosa”.

Referências:

SUSIN, Luiz Carlos. Revista IHU on-line. “A canonização de Sepé: uma causa da Igreja e do Povo”. Disponível em https://www.ihu.unisinos.br/categorias/586747-a-canonizacao-de-sepe-uma-causa-da-igreja-e-do-povo

TAU GOLIN. A Guerra Guaranítica. O levante indígena que desafiou Portugal e Espanha. São Paulo: Terceiro Nome, 2014.