Que culpa tinha o cão ”Orelha” ? Crônica- Joice Figueiredo

Que culpa tinha o cão Orelha, de tamanha perversidade, frieza e seja lá qual for o sentimento que havia no interior dessas pessoas ao terem lhe violentado. O cachorro orelha nome a qual carinhosamente era chamado, mascote da Praia Brava (SC) há 10 anos, foi violentamente espancado por adolescentes e encontrado por uma moradora durante sua caminhada caído e agonizando, sem chance de sobreviver.
Um cachorro é sinônimo de esperança, pois ele permanece ao seu lado mesmo quando não há sinal de recompensa, confia sem exigir garantias e nos ensina que esperar (ança) também é um gesto de amor. Orelha se mostrava um cachorro contente com a vida que levava nas ruas, com olhos inocentes, que vivia no meio do movimento, de pêlo bonito, não tinha dono, mas tinha o amor de todos que por ali passavam.
Um animal mimado por todos, que por relatos não tinha reclamação alguma a seu respeito, por isso não ia oferecer risco algum, somente uma vontade de brincar, um pedido de carinho, um olhar de atenção e até que fosse oferecido um simples alimento, mas nunca pensou que se tratava de uma armadilha para lhe contundir.
Porque assim como eu, sempre espero o melhor das pessoas, mesmo que seja preciso estar sempre com um pé atrás, ele não foi diferente, esperou que fosse bem tratado, que lhe oferecesse cócegas na barriga ou talvez uma passada de mão na sua cabeça, como gesto de carinho de quem se aproximava.
Agora eu me pergunto: Até onde vai a maldade do ser humano? Adolescentes agindo monstruosamente contra um animal indefeso, para ter o prazer de vê-lo sofrendo, sangrando, grunhindo. É isso mesmo?
E pensar que Orelha rezingou por ajuda, desamparado, frágil e sem condições nem uma de se defender e nem assim causou-lhes piedade.
Orelha já era marca registrada na cidade, patrimônio histórico, símbolo cultural e social.
A morte do cão Orelha, só nos força a digerir e engolir inteira essa injustiça de que o ser humano sempre vai escolher alguém menor e mais fraco para descarregar a culpa, a dor, a bagunça, a frustração e até a desonestidade.
A justiça não pode passar em branco, por orelha e por muitos outros cães que já foram silenciados e não obtiveram repercussão.





