Renato Gaúcho só agora descobriu o que ja se sabia

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RENATO GAÚCHO DESCOBRIU SOMENTE AGORA O QUE OS ESTUDIOSOS DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO JÁ SABIAM HÁ MUITO TEMPO?

Por Luiz Gonzaga Silva Adolfo (Advogado em Direitos Autorais há 34 anos, doutor

em Direito, Professor de Direito).

No dia 23 de setembro, o técnico de futebol Renato Portaluppi (gaúcho e gremista, como este escriba) pediu seu desligamento do Fluminense Football Club, após um empate e a desclassificação da equipe na Recopa Sulamericana.

Chamou muito a atenção o fato de que o treinador tenha acusado incisivamente – como, convenhamos, sempre foi seu estilo – as redes sociais por sua saída. Disse ele que “acabou o futebol, por causa das redes sociais”.

Portaluppi havia sido chamado de “burro” por torcedores no Estádio Maracanã, durante a partida contra o time argentino do Lanús.

Admitamos, a realidade do domínio de setores culturais, econômicos, políticos, sociais e esportivos pelas redes sociais não é nova. Tornou-se famosa a frase de Umberto Eco, que, em 2015, afirmou que a internet e as redes sociais deram voz a “legiões de imbecis”. Para ele, antes o “idiota da aldeia” chegava a seu pequeno círculo, e não tinha o alcance atual, muito menos a pretensão de “portador da verdade”, ou fazia, em maior grau, volume e extensão, a disseminação de informações pouco confiáveis.

Tirante o grau relativo que deve ser atribuído a interpretações no campo de um esporte de massa no Brasil e a tentativa necessária de superação de

certo pessimismo, merece reflexão o desabafo do profissional do esporte que, no Mundial de Clubes da FIFA do meio do ano, levou o mesmo Fluminense às semifinais e foi muito comemorado por isso nas redes.

Mesmo uma reflexão breve, conforme este espaço permite.

Aqui no Rio Grande do Sul, há os torcedores gremistas a favor de Renato Portaluppi e os contrários a ele. O professor Lenio Luiz Streck até cunhou a expressão “renatismo estrutural”, para criticar certo culto à personalidade do futebolista natural de Guaporé, no meio da massa tricolor dos pampas.

É a realidade apresentada. Por fim, observa-se a rede (William J.Mitchell, 2001): apesar de, como Trivinho afirma, não existir apenas “a rede”, mas diversas redes, a Internet se destaca como o ciberespaço mais conhecido e sofisticado do mundo, em meio a outras redes locais e internacionais (Eugênio Trivinho, 1998).

Um dos críticos mais conhecidos dessa realidade é o filósofo e ensaísta sul-coreano-alemão Byun-Chul Han. Para ele, os algoritmos que controlam a comunicação nas redes sociais não ajudam a construção da liberdade ou da democracia

A personalização feita pelos algoritmos acaba prejudicando o espaço público, pois estes só dão destaque a opiniões e perspectivas que estão de acordo com quem está falando, enquanto outras informações ficam de fora.

Com a globalização, a digitalização e a conexão cada vez maior entre as pessoas, o mundo real está se desintegrando mais rapidamente. O que antes era diálogo está sendo substituído por fé e crença, e a comunicação vem baseando-se cada vez menos no entendimento do outro, perdendo essa dimensão importante do relacionamento humano (Byun-Chul Han, 2022; 2024).

 

O fenômeno, na verdade, não é tão novo. Em maio de 2011, o então presidente da França, Nicolas Sarkozy, chamou Andrew Keen, Mark Zuckerberg, Eric Schmidt e outros influentes do setor, reunidos em Paris, debaterem sobre a importância de uma regulação governamental da Internet. O que ouviu de Schmidt foi: “a tecnologia avançará mais rapidamente que os governos, portanto, evitem legislar antes de compreender as repercussões” (Andrew Keen, 2011).

É importante destacar a original e instigante expressão formulada por Nehemias Bandeira e Carlos César Ronchi: homo algorithmus. Essa designação refere-se ao ser humano analisado a partir das operações algorítmicas, sem, muitas vezes, a consciência do que ocorre por trás desse

mecanismo em constante transformação (Nehemias Bandeira; Carlos César Ronchi, 2019).

Essa realidade esteve e está na pauta dos últimos tempos, no Brasil e no mundo.

Ainda em 17 de setembro, foi sancionada entre nós a Lei n. 15.211, que regula a proteção de crianças e adolescentes nas redes sociais, também conhecida como “ECA Digital”.

Na Sociedade da Informação, podem vicejar valores e ações, como a liberdade de expressão, a democracia, a participação. Nela, “o papel da internet ultrapassa a instrumentalidade” e “cria as condições para uma forma de prática comum, que permite a um movimento sem liderança sobreviver, deliberar e expandir-se”. Pode, então, em outra perspectiva, transformar-se em redes de indignação e de esperança (Manuel Castells, 2013).

A angústia de Renato Portaluppi é justa, certamente como a de tantos brasileiros com menores condições econômicas e de espaço na mídia que ele, assolados por essa nova realidade.

Será que ele somente descobriu agora o que os pesquisadores da sociedade tecnodigital já sabiam há tantos quadrantes? De se questionar e, é claro, de se observar a complexidade do fenômeno e apresentar contribuições ao debate, com serenidade, foco, e método.