Sem Wi-Fi, ligue a conversa- Sérgio da Silva Almeida. Crônica

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Quem já se deparou com frases como “não temos Wi-Fi. Voltem aos velhos tempos e usem a imaginação”, “Sem Wi-Fi. Lembrem-se de como era a vida antes do WhatsApp” ou “não temos Wi-Fi. Falem uns com os outros.
Eu sei, é assustador, mas vocês vão sobreviver!”? Tais avisos em comércios tentam fazer as pessoas deixarem o celular de lado para conversar.
Em Cachoeira, costumo fazer a barba na Barbearia Nova Era, na Avenida Brasil, do amigo Mauro. Sempre há clientes à espera e, mesmo com Wi-Fi no local, dificilmente se vê alguém no celular; assim, o bate-papo corre solto e os assuntos são diversificados.
Na última sexta puxei conversa com o senhor Firmino Clemente Kersting, morador do Bairro Santa Helena (no centro da foto). Começamos pela dupla Gre-nal e o assunto foi longe. Ele me contou que veio de Rio Pardo há anos e se dá muito bem com meu pai, Benemídio. “Quando ele era presidente da Celetro, eu entrava na sala dele sem ser anunciado. Sempre me recebeu de braços abertos”, comentou.
Após nos despedirmos, imaginei quantas histórias existem em gente como o seu Firmino. Elas desaparecem simplesmente porque deixamos de conversar com quem tem mais vivência e carrega, na própria história, uma verdadeira biblioteca viva: relatos de trabalho, família, dificuldades, conquistas, erros e acertos de um tempo que não volta.
Talvez por isso eu me considere “do tempo antigo”. Gosto de sentar, conversar e ouvir a trajetória de quem tem o que contar. Essa troca harmoniza-se com o pensamento Antoine de Saint-Exupéry, autor de “O Pequeno Príncipe”: “Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”
Não tenho nada contra amizades virtuais; o WhatsApp aproxima quem está longe. O problema é quando a mensagem substitui a presença. Uma coisa é falar pelo celular. Outra é sentar ao lado de alguém, olhar nos olhos, notar a expressão do rosto, ouvir suas memórias e descobrir que quem está ali tem muito a nos ensinar. É o que ocorre na barbearia: pessoas sem marcar se encontram. Enquanto alguém corta o cabelo ou faz a barba, os demais ligam a conversa. E quanto ao Wi-Fi? Ah, ele só se faz necessário no pagamento – caso a conexão da operadora falhe.