Um herói missioneiro: Sepé Tiaraju- Crônica – Prof. Dra. Elaine dos Santos

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Em 7 de fevereiro de 1756, Sepé Tiaraju foi assassinado no território que, hoje em dia, compõe o município de São Gabriel. Em 2006, ano em que o Rio Grande do Sul comemora os 400 anos da fundação da primeira Missão Jesuítica, no chamado primeiro ciclo, São Nicolau datada de 1626, é lícito também que se rememore o grande líder, que tomou 270 atrás em defesa do seu povo.
Não existem dados que confirmem a data e o local de seu nascimento, estima-se que tenha sido por volta de 1723, em um dos Sete Povos e que teria sido batizado José Tyarayu ou Tiararu. A pronúncia entre portugueses e espanhóis tornou-se Tiaraju. Consta, por outro lado, que entre os indígenas, era apenas Sepé, vocábulo que alguns pesquisadores associam a Çape, um tipo de gramínea ou ainda o antigo capim santa fé, usando para cobrir casas.
Os Sete Povos das Missões eram um enclave da Província Jesuítica do Paraguai na margem leste do rio Uruguai, situados, portanto, em território do atual Rio Grande do Sul. Cumpre sempre recordar que, pelo Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, uma grande porção do atual território brasileiro nasceu sob bandeira espanhola, o que inclui o estado mais meridional do Brasil, onde vivemos.
De acordo com o novo Tratado assinado entre Espanha e Portugal, em 1750, haveria uma redistribuição de terras. A Colônia de Sacramento, possessão portuguesa, situada às margens do Rio da Prata, fronteiriça a Buenos Aires, passava para o domínio espanhol, enquanto os Sete Povos das Missões deveriam tornar-se portugueses.
Desde o início o Tratado não foi bem aceito pelos padres jesuítas que começaram a estabelecer negociações contra ele em Roma, Madri, Buenos Aires. Os indígenas que habitavam os Sete Povos também não o aceitaram, pois implica deixar a terra, as suas casas, as lavouras, os cemitérios em que repousavam os seus ancestrais.
As tropas portuguesas e espanholas prepararam-se para a tomada armada dos Sete Povos e pretendiam subjugar os indígenas, interessava-lhes as terras e o grande rebanho de gado disponível naquela região – é sempre bom lembrar que os jesuítas introduziram o gado no Rio Grande do Sul ainda no primeiro ciclo de ocupação entre 1626 e 1637.
A Guerra Guaranítica desenvolveu-se entre os anos de 1752 e 1756 e, segundo consta, de início, as tropas espanholas e portuguesas lutaram separadamente, mas não obtiveram sucesso. Mais tarde, traçaram um plano que lhes permitiria a batalha conjunta.
Nesse cenário, Gomes Freire de Andrada, o comandante português, fez uma tentativa de passagem por meio do rio Jacuí, quase na foz do rio Vacacaí Grande, na primavera de 1754, mas foi impedido por tropas guaranis que ali se encontravam. Historiadores afirmam que Sepé Tiaraju, o grande líder guarani, teria estado presente naquele espaço, por outro lado, não há controvérsias que o armistício assinado entre os líderes guaranis que ali compareceram e Gomes Freire retardaram o fim da Guerra Guaranítica em dois anos, afinal as tropas portuguesas precisaram regressar a Rio Pardo e, mais que isso, buscar um novo caminho para chegarem as Missões.
As lutas continuaram por todo o território, até que, em 7 de fevereiro de 1756, caiu morto; mesmo assim, os guerreiros que lhe seguiam e que ele havia inspirado seguiram o combate liderados por Nicolau Ñanguiru, quando 1.500 indígenas, em Caiboaté, no dia 10 de fevereiro, foram vencidos por 3.000 soldados espanhóis e portugueses. No dia seguinte, as tropas exigiram a rendição dos Sete Povos, ainda assim, São Lourenço lutaria por mais três meses até a decretação do fim da Guerra.
Sepé Tiaraju tornou-se um símbolo do sentimento indígena de liberdade e da luta por suas terras. Em 2010, a Arquidiocese de Bagé abriu o processo para a sua beatificação junto ao Vaticano. Sepé Tiaraju, tem o seu processo em andamento na Santa Sé, e é considerado Servo de Deus desde 2018.
Os historiadores portugueses e brasileiros, sob certo aspecto, não se detêm na História anterior à fundação da Fortaleza Jesus Maria José ou nos anos subsequentes, que marcam a presença lusa em nosso território, por isso, durante muitos anos, a História das Missões e mesmo de Sepé Tiaraju e dos guerreiros guaranis têm sido contadas subliminarmente. No entanto, é preciso deixar claro que há um sem número de estudiosos brasileiros, paraguaios e argentinos debruçados sobre esse tema, em busca de resquícios da passagem dos indígenas missioneiros e dos jesuítas pela região. Sepé segue vivo naqueles que ainda mantêm, em suas veias, a herança dos povos primevos deste chão.