Um pouco da História do Rio Grande – parte III Prof. Dra. Elaine dos Santos

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O narrador de “O tempo e o vento”, de Erico Verissimo, ainda no primeiro volume “O continente I”, insere as Guerras Guaraníticas no decurso de sua narrativa, reencontra o jovem Pedro Missioneiro que é incitado a fugir pelos jesuítas e recebe um punhal por parte de Padre Alonzo, o jesuíta espanhol, seu padrinho.

Em outro ponto do território de São Pedro, vivia a família de Maneco Terra. Na prática, o governo português havia decidido doar terras para soldados que davam baixa das tropas regulares, tropeiros paulistas e outros “patrícios portugueses” que prestassem algum tipo de serviço para a Coroa. Maneco Terra, o personagem fictício de “O tempo e o vento”, era um tropeiro paulista, cuja família vivia em Sorocaba/São Paulo, e viera habitar uma região erma no Rio Grande Sul. Veio acompanhado pela mulher, Henriqueta; dois filhos varões, Horácio e Antonio; e uma filha mulher, na “flor da idade para casar”, Ana Terra.

Certa feita, Ana Terra, que já sentia os humores do corpo, descobriu um homem, de pele não branca, caído na fonte em que costumava lavar as roupas da família e tomar banho para “aplacar os desejos do corpo”. Chamou o pai, o homem – que trazia um ferimento – foi tratado pela família Terra e pediu guarida. Contra a vontade de Maneco Terra, ele acabou ficando, construiu um rancho, ajudou no cultivo da terra e encantou a todos com música – tocava flauta -, com suas histórias numa língua castiça, meio português, meio espanhol. Mas encantou ainda mais Ana Terra. Encontrava-se na fonte. Ela engravidou. Ele previu a própria morte. Os homens da família de Ana mataram-no. Cumpriam-se os ritos da tradicional família sorocabana. Pedro Terra nasceu. Maneco hostilizou-o, porém, mais tarde, encantou-se com a criança. A vida seguia aquela monotonia que teria que seguir nas regiões mais desabitadas do então Território de São Pedro. Henriqueta morreu, Ana assumiu as lides da casa, um dos irmãos casou-se e foi morar em Rio Pardo, um centro disseminador do comércio para quase todos os homens daquele rincão.

Um emissário passou avisando que castelhanos haviam adentrado o território e vinham causando desgraças. Blau Nunes, narrador de “Contos gauchescos”, de Simões Lopes Neto, particularmente, no conto “Contrabandista”, nos informa sobre o sistema nada amigável da fronteira – continentinos adentravam território espanhol, castelhanos adentravam território continentino. Claro, Blau Nunes floreia um pouco a linguagem, idealiza um tanto os personagens, mas se sabe que havia refregas, contrabando, peleia.

No rancho dos Terra, todos se prepararam. Maneco determinou que Ana, seu filho, a cunhada e a pequena fossem para o mato; Ana escondeu-os e permaneceu em casa; os castelhanos perceberiam que havia mulheres no local e ela ajudaria com armas. Eles vieram, estragaram a plantação, destruíram o que havia sido colhido, mataram os homens e violentaram Ana…uma, duas, dez vezes, ela desfaleceu. O sistema de fronteira era assim: bruto!

Ana, quando acordou, com o cheiro de cachaça, de cigarro e o corpo ardendo, correu para o mato – o filho, a cunhada e a sobrinha estavam salvos. Enterraram os mortos, juntaram os trastes e, ao longe, viram uma caravana que se aproximava. Aguardaram-no. Eles estavam indo para um dos tantos povoados que começavam a surgir no Rio Grande, fruto dos investimentos de um estancieiro abastado, Ricardo Amaral. Seguiram juntos.

O Rio Grande foi, sim, forjado a patas de cavalo, à dor, à violência. Mas também foi feito na força do amor. Ana Terra levou consigo a tesoura de sua mãe, tornou-se parteira no povoado que nascia, Santa Fé. Lá, onde anos mais tarde, apareceria um certo Capitão Rodrigo, vindo da Guerra da Cisplatina, pronto para morrer na Guerra dos Farrapos. Chegou dizendo:

“Buenas e me espalho…”