Vou-me embora pro passado- Sérgio da Silva Almeida   

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O poema “Vou-me embora pro passado”, de Jessier Quirino, rememora episódios de meu passado esquecido. Por ter crescido assistindo meu pai trabalhando em oficina mecânica, já nos primeiros versos, viajei no tempo: “Vou-me embora pro passado, porque lá, é outro astral. Lá tem carros Vemaguet, Jeep Willys, Maverick, tem Gordine, tem Buick, tem Candango e tem Rural”. Outros me fizeram lembrar que a infância e a adolescência são momentos de felicidade despreocupada: “Assistirei ‘Rim Tim Tim’ ou mesmo ‘Jeannie é um gênio’. Vestirei calças de Nycron, Faroeste ou Durabem”.

 

Há versos que me transportaram para os primeiros anos do Ensino Fundamental: “Lá se faz caligrafia pra modelar a escrita. Se estuda a tabuada, de Teobaldo Miranda ou na Cartilha do Povo, lendo ‘Vovô viu o ovo’, e a palmatória é quem manda”. E me remeteram aos tempos de minha avó materna: “No passado tem remédio pra quando se precisar. Lá tem doutor de família que tem prazer de curar. Xarope de limão brabo, Pílulas de Vida do Dr. Ross. Tem também aqui pra nós, uma tal Robusterina, a saúde feminina”.

 

Por fim, a última parte do poema fez bater uma saudade: “Vou-me embora pro passado pra não viver sufocado, pra não morrer poluído, pra não morar enjaulado. Lá não se vê violência, nem droga, nem tanto mau. Não se vê tanto barulho, nem asfalto, nem entulho, no passado é outro astral”.

 

Que Jessier Quirino perdoe minha audácia, mas se eu adaptasse sua poesia, ficaria mais ou menos assim: “Vou me embora pro passado pra, antes que o galo cante, sentar com meu avô e matear em frente ao fogão. E quando o sol nascer, beber leite de caneca tirado direto da vaca no galpão. Vou me embora pro passado, jogar bola com a gurizada no campinho de terra. E depois encher as mãos com mamonas pra, de brincadeirinha, fazer guerra. Vou me embora pro passado, fazer só coisas que fazem bem ao coração. E cumprir o quarto mandando da Lei de Deus: pros pais, pedir a benção”.